Elas inovam na Serra Gaúcha: Ana Cristina Fachinelli, coordenadora do CityLivingLab
Cidades inteligentes é o tema de pesquisa da professora da UCS, terceira perfilada de série da Sict
Publicação:
“Precisamos olhar para o gênero nas cidades brasileiras como um tema desafiador, que envolve questões de desigualdade, violência e questões sociais que afetam mulheres, mas também outras minorias”, define a professora e pesquisadora Ana Cristina Fachinelli, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade de Caxias do Sul (UCS). Aos 56 anos, Ana Cristina coordena o CityLivingLab, laboratório vivo de cidades do conhecimento, que realiza pesquisas inovadoras com foco em experimentação de tecnologias emergentes e modelos de negócios transformadores.
Ela conta que fundar o CityLivingLab foi a resolução de um dos maiores desafios de sua carreira: a pandemia, que interrompeu um ritmo acelerado e coeso de pesquisas em grupo na UCS. “Estávamos em um ritmo muito bom e, de repente, fecha tudo, vai todo mundo pra casa e a gente se distancia. Ficou todo mundo preocupado. Foi um momento bem desafiador, mas, por outro lado, foi de muita inspiração, porque fiquei preocupada em manter o grupo unido. Então, pensei em trabalhar dentro da lógica de living labs”, relembra.
Assim, o grupo estudou o fenômeno da inovação dentro de uma situação como aquela e, portanto, se reorganizaram e alinharam as pesquisas. “No final das contas, foi positiva essa iniciativa, tanto que, nos anos seguintes, em 2021 e 2022, potencializamos o modelo de trabalho como living labs. De fato, nossas conexões com o entorno e com o ecossistema regional de inovação se fortaleceram muito. Gerou respostas criativas para um momento muito singular”, completa.
Além de coordenar o CityLivingLab, Ana Cristina é proponente do projeto “Sistema de coleta de dados por dispositivos IoT (sensoriamento) para cidades inteligentes”, contemplado no edital 2021 do programa Inova RS, e é líder técnica da área estratégica de Cidades Inteligentes no ecossistema regional de inovação da Serra Gaúcha.
Avaliando questões de gênero nas cidades, Ana Cristina pontua que há desafios a serem transpostos. Por serem cenários de agressões, abusos e feminicídios, é preciso ter políticas públicas que combatam as desigualdades para caminhar rumo à equidade. “Temos [políticas públicas], e muitas precisam ser reconhecidas, mas ainda não são eficientes”, conta. Outros pontos citados por ela são o acesso a serviços públicos e privados, como transporte, educação, saúde e infraestrutura; participação da mulher nos espaços de tomada de decisão; e iluminação e segurança em espaços públicos, principalmente à noite. A própria participação ainda baixa de mulheres na política é citada como um entrave na proposição de políticas públicas adequadas às necessidades de gênero. “Para isso, é preciso ouvir as mulheres e criar espaços de diálogo para que possamos ajudar a criar cidades mais equitativas e inclusivas”, propõe.
Cultura da inovação e equidade de gênero
“Ao promover a equidade de gênero, a cultura da inovação vai contribuir para a construção de ambientes mais justos, inclusivos e produtivos, que não vão beneficiar apenas as mulheres, mas a sociedade como um todo”, afirma Ana Cristina. Entendendo a cultura da inovação como a resolução de problemas complexos em espaços para experimentação e falha, ela diz que a equidade de gênero pode ser fomentada com a criação de cenários mais acolhedores às mulheres.
Isso pode ser operacionalizado com a adoção de políticas públicas e com programas de mentorias de mulheres, por exemplo. “Outra forma de a cultura da inovação promover a equidade de gênero é a flexibilidade no trabalho, oferecendo opções de trabalho remoto e flexível, que auxiliam a conciliar as responsabilidades profissionais e pessoais. Essa flexibilidade beneficia principalmente as mulheres”, explica.
Uma das maiores dificuldades que a pesquisadora enxerga dentro do setor de inovação, ciência e tecnologia é justamente conciliar a vida profissional com a pessoal, sobretudo após o nascimento de filhos. “Não é por nada que, lá em 2019, tanto se falou sobre poder registrar até na plataforma Lattes o número de filhos. Há estudos que mostram que a produtividade da mulher pesquisadora cai quando temos filhos”, defende.
Para além disso, Ana avalia que a cultura da inovação pode promover igualdade entre homens e mulheres remunerando de forma justa a contribuição de ambos, bem como por meio do incentivo a programas de liderança feminina. “Por fim, eu também mencionaria a implementação de tecnologias inclusivas, que levem em conta diferentes necessidades e realidades de homens e mulheres. Isso pode ser feito por meio da incorporação de tecnologias de acessibilidade em recursos e serviços”, completa.
Elas inovam
Para marcar o Dia Internacional da Mulher, a Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul coloca sob os holofotes mulheres que estão moldando as políticas de inovação do estado. “Elas inovam” é uma série que conta a trajetória de oito profissionais, uma em cada ecossistema regional de inovação, que inspiram e apoiam outras mulheres, liderando transformações na tríade inovação, ciência e tecnologia dentro de universidades, hubs de inovação, startups e empresas.