Elas inovam na região Sul: Ana Cristina Kraemer, médica e professora da UCPel
Coordenadora do projeto Health UX Lab, que recebeu aporte do Inova RS, Ana Cristina é sexta perfilada de série da Sict
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“Nós, mulheres, precisamos provar que vamos conseguir alcançar os resultados esperados não somente pelo risco que a inovação revela, mas porque nossa capacidade intelectual, nas questões tecnológicas e científicas, ainda é desmerecida”, afirma Ana Cristina Kraemer, cirurgiã plástica e professora da Universidade Católica de Pelotas (UCPel). Aos 46 anos, ela coordena o projeto Health UX Lab, que foi aprovado em um edital do programa Inova RS, com aporte de R$ 1 milhão da Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (Sict).
O Health UX Lab é um laboratório de simulação, usabilidade e avaliação de tecnologias para a saúde, vinculado à Faculdade de Medicina da UCPel, que possui estrutura para simulação de uso, ensaios de validação e usabilidade de produtos voltados a unidades de terapia intensiva (UTIs). Ana Cristina conta que planejar e instaurar o laboratório de simulação, em 2016, foi um grande desafio. “É um projeto ousado, inovador, arriscado, que antecedeu o projeto atual, e foi desacreditado, inicialmente, pelo meio acadêmico. Porém, quando implantado e inaugurado, ele obteve reconhecimento”, relata.
A partir dali, lembra ela, começou a se firmar como liderança de inovação na academia. Atualmente, é doutoranda da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e começou a participar de editais de inovação e empreendedorismo motivada pelo Programa de Pós-Graduação em Odontologia com ênfase em biomateriais/inovação e tecnologia. Contudo, pondera que persistem desafios de credibilidade e incentivo.
Bacharela em Medicina e mestra em Saúde e Comportamento, ela conta que avançar na área de saúde foi desafiador por ter optado por duas especializações majoritariamente ocupadas por homens: a cirurgia geral e a cirurgia plástica. "Entrar no mundo masculino e fazer com que os colegas, preceptores e pacientes acreditassem que eu poderia realizar uma cirurgia complexa e que teria condições físicas para as longas horas de dedicação foi um grande desafio”, diz. “Nunca me conformei com a concepção de que existiam espaços masculinos e femininos, mas que existiam oportunidades nas quais eu poderia me desenvolver a partir das minhas expectativas e capacidade intelectual”, completa.
Para além da diversidade
Ana Cristina acredita que o pensamento predominante hoje é de que a diversidade gera inovação e crescimento, porque agrega diferentes perspectivas, competências e habilidades na obtenção de resultados inovadores – e isso é benéfico às mulheres, uma vez que engloba suas conquistas e espaço na cultura da inovação. Porém, ela frisa que é importante não parar por aí: “Não basta apenas a inserção, mas o reconhecimento das suas capacidades e direitos igualitários”.
Para isso, reitera a importância de programas de incentivo e acesso ao conhecimento científico-tecnológico, códigos de ética e conduta que preservem a autonomia e integridade das mulheres, espaços de apoio e orientação, equidade salarial e de horas de trabalho. Por fim, cita que é preciso um processo de desconstrução de pensamento. “É necessário desconstruir a concepção que nós, como sociedade, fazemos da ciência e da sua estreita relação com o gênero masculino em detrimento das capacidades intelectuais femininas”, finaliza.
Elas inovam
Para marcar o Dia Internacional da Mulher, a Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul coloca sob os holofotes mulheres que estão moldando as políticas de inovação do estado. “Elas inovam” é uma série que conta a trajetória de oito profissionais, uma em cada ecossistema regional de inovação, que inspiram e apoiam outras mulheres, liderando transformações na tríade inovação, ciência e tecnologia dentro de universidades, hubs de inovação, startups e empresas.